Humanidades

Estudo mostra que altruísmo mínimo pode conter epidemias sem imposição estatal
Utilizando teoria dos jogos e modelos matemáticos do tipo SIR, os cientistas demonstram que mesmo indivíduos 'fracamente altruístas' podem, de forma racional e descentralizada, adotar comportamentos que levam à...
Por Laercio Damasceno - 28/02/2026


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Uma população precisa ser quase heroicamente altruísta para conter uma epidemia por conta própria? Um novo estudo publicado nesta sexta-feira (27), na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), sugere exatamente o contrário: níveis surpreendentemente baixos de altruísmo — equivalentes a valorizar a própria vida como a de cerca de 100 mil outras pessoas — já seriam suficientes para sustentar, de forma racional, o isolamento voluntário de indivíduos infectados e suprimir a doença antes que ela se espalhe.

O artigo, intitulado “The theory of epidemics with altruism”, foi conduzido por pesquisadores da University of Warwick, da The University of Tokyo e da Kyoto University. Utilizando teoria dos jogos e modelos matemáticos do tipo SIR, os cientistas demonstram que mesmo indivíduos “fracamente altruístas” podem, de forma racional e descentralizada, adotar comportamentos que levam à supressão indefinida da doença — evitando o chamado “imunidade de rebanho” via infecção em massa.

Dois equilíbrios, dois destinos

O modelo identifica dois equilíbrios possíveis:

Supressão indefinida: pessoas infectadas reduzem drasticamente suas interações sociais, enquanto suscetíveis mantêm comportamento quase normal. A epidemia é contida rapidamente.
Imunidade de rebanho: infectados não se isolam de forma significativa; suscetíveis reduzem contatos para se proteger. A maioria da população acaba infectada.

“O resultado central é que existe um ponto de virada muito nítido”, afirma Simon K. Schnyder, da Universidade de Warwick e um dos autores do estudo. “Acima de um certo limiar de altruísmo, a supressão da doença emerge espontaneamente como um equilíbrio estável. Abaixo dele, o sistema converge para a infecção em massa.”

O que surpreendeu os pesquisadores foi a magnitude desse limiar. Para cenários em que a população reage cedo — por exemplo, quando apenas 0,001% está infectado — o parâmetro crítico de altruísmo pode ser da ordem de 105. Em termos intuitivos, isso significa que um indivíduo que valorize a própria vida como equivalente à de 100 mil outras pessoas já teria incentivo racional para se isolar ao adoecer.

“É um número extraordinariamente pequeno”, observa Matthew S. Turner, também da Universidade de Warwick. “Isso sugere que níveis muito modestos de preocupação com os outros já podem sustentar resultados quase ótimos.”

O papel da informação precoce

O estudo mostra que três fatores influenciam fortemente o limiar de altruísmo necessário:

i0 — a fração inicial de infectados quando a população toma conhecimento da epidemia;
t_f — o horizonte temporal esperado (por exemplo, até a chegada de uma vacina);
0 — a proporção de casos sintomáticos.

Quanto mais cedo a sociedade reconhece a ameaça, menor o nível de altruísmo necessário para sustentar a supressão. Segundo os autores, isso dá respaldo matemático à importância de transparência e comunicação rápida por parte de autoridades públicas.

“Se os formuladores de políticas conseguem reduzir o número inicial de casos no momento da conscientização pública, eles efetivamente reduzem o altruísmo mínimo necessário para que a própria sociedade se organize”, escreve a equipe.


Assintomáticos e o risco estrutural

O modelo também considera infecções assintomáticas. Quando a fração de casos sintomáticos cai abaixo de um limiar crítico (0* = 1 - 1/R0), a supressão se torna muito mais difícil. Nesses cenários, o altruísmo necessário pode aumentar em várias ordens de magnitude.

Ainda assim, os resultados permanecem robustos a uma “fração moderada” de indivíduos completamente egoístas — que, no modelo, se comportam de forma análoga a assintomáticos que não sabem que estão infectados.

Implicações para humanos — e animais

Além de aplicações em saúde pública, o estudo sugere implicações evolutivas. Em grupos de animais socialmente próximos, onde a seleção de parentesco favorece comportamentos altruístas, o isolamento espontâneo de indivíduos doentes poderia emergir como estratégia adaptativa.

Os autores citam evidências de insetos eusociais que abandonam a colônia quando adoecem, mas reconhecem que, em mamíferos e aves, as evidências são mais limitadas — possivelmente pela dificuldade de observação.

Um problema complexo, uma regra simples

Embora o modelo envolva um sistema sofisticado de jogos de campo médio e otimização dinâmica, o comportamento que emerge como solução ótima é simples: quando infectado, reduza drasticamente os contatos sociais.

Para os pesquisadores, essa simplicidade é um dos achados mais relevantes.

“Mostramos que um problema matematicamente complexo pode gerar uma heurística comportamental extremamente simples”, afirmam os autores. “Isso a torna fácil de comunicar e potencialmente aplicável tanto a humanos quanto a animais sociais.”

Num momento em que o mundo ainda debate os legados comportamentais da pandemia de COVID-19, o estudo sugere que a linha entre o egoísmo racional e o altruísmo eficaz pode ser muito mais tênue — e poderosa — do que se imaginava.


Referência
M.P.Lynch, S.K.Schnyder, J.J.Molina, R.Yamamoto, &M.S.Turner, A teoria das epidemias com altruísmo, Proc. Natl. Acad. Sci. USA 123 (9) e2518893123, https://doi.org/10.1073/pnas.2518893123 (2026).

 

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